Descobrí Portugal graças a um livro. Aliás, um poema. Corria o ano de 1964, eu tinha 21 anos, era estudante em Paris (pelo menos era o que eu dizia aos meus pais) e um dia, a caminho da gare de Lyon para regressar a Itália, comprei num "bouquiniste" um livrinho em francês com um título bizarro, Bureau de Tabac, de um autor para mim desconhecido, um tal Fernando Pessoa. É assim que na minha vida começa Portugal.

Um livro, levou-me a Portugal. Mas se um livro pode conduzir até um pais, nao chega para que nele se fique, ou para que ele fique dentro de nós. Para que isso aconteça sao necessárias as pessoas. E uma dessa pessoas foi José Cardoso Pires.

So direi que era daquelas amizades feitas de entendimentos recíprocos, de cumplicidade, de juízos de valor sobre a realidade, as pessoas, as ideias, as ideologias, a literatura, em suma, sobre a vida. "Eh pá, este livro tem imensa graça!" Ou entao: "Eh, pá, esta polícia é mesmo uma merda!"; e ainda: "Eh pá, este gajo é mesmo um sacana!".

E pronto: nao era necessário adiantar mais. Enfim, era uma amizade que fazia com que, chegando â minha casa de Lisboa, depois de uma ausência, longa ou curta que fosse, eu depositasse a mala na entrada e mesmo sem abrir as portadas das janelas, a primeiras coisa era chegar ao telefone do outro lado da sala para chamar o Cardoso Pires.

Já sei o que me vai acontecer da próxima vez que chegar a Lisboa, e sinto um arrepio nas costas. Vou abrir a porta, vou pousar a mala no chao, vou acender as luzes sem abrir as portadas das janelas, vou dar uns passos e vou olhar para o telefone como quem está perdido e procura um sinal de reconhecimento. Nao vai ser fáil abdicar de um ritual já antigo e nao voltar a ouvir a frase do costume: "Porra pá, até que enfim!". António Tabucchi.